Trabalho x Bodega
Por Si Faller
si@papodebodega.com
E eis que um dia, sorrateiramente, o Marcio me vem com essa de “escrever sobre o que quiser”. Ele me convidou para entrar na bodega e prometeu pagar a conta. Sinto-me lisonjeada. O máximo que já haviam me oportunizado nesse sentido aconteceu há (poucas) décadas atrás, ainda no colégio. “Pessoal, hoje vamos escrever!”. “Sobre o quê, professora?”. “Ah, é tema livre”. Civilizadamente livre, claro. A censura, às vezes, pegava alguns. Livres demais.
Mas eu poderia ter tomado a iniciativa da “escrita livre” sem esperar pelo convite, sim? Não. Sou preguiçosa. E não é preguiça pro trabalho, é preguiça para o lazer. Tá bom, não é só a preguiça. Devido ao sucesso dos meus pais em me educar dentro dos ditames da cultura judaico-cristã brasileira, às vezes, me pego culpada pela diversão (quase esqueço que a preguiça, no referido contexto, é um daqueles 7 pecados).
“Si, vamos no cinema?”
“Tenho que entregar meu projeto amanhã.”
“Si, vamos dar uma volta?”
“Vou fazer uma prova às 8h.”
“Si, vamos encher a cara?”
“E dar palestras pra crianças sobre o álcool como?”
Não daria tempo de esvaziar a cara até lá! Porém, acabo me dando conta que seria tão bom reservar um tempo para ir no cinema, dar uma volta, encher a cara, conversar e rir com mais freqüência! Nem que seja 20 minutos por semana. E virtualmente. Levando isso em conta, começo a acreditar no Marcio, que me garantiu ser uma evolução passar de “escritora de artigos científicos” para “escritora de bodega”. Não escrevo bem, nem tenho a pretensão. Mas jogar “conversa fora” dentro dessa bodega será, no mínimo, muito divertido.