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  Girico e a cruzada dos biocombustíveis
Por Eduardo Nunes
eduardo@papodebodega.com
http://operiscopio.wordpress.com

Sabe a expressão “idéia de Girico”? Você ouve falar de uma invenção estapafúrdia, como um ventilador que joga inseticida nas crianças, e pergunta:

- Mas quem é que teve essa idéia de Girico?

Não conheço o tal Girico, mas imagino que tenha sido um cara não muito brilhante. Independente do Girico original, o Adão dos Giricos, as idéias de Girico abundam na administração pública brasileira – há muito tempo.

Agora, assim de repente, Lula tornou-se o cruzado dos biocombustíveis, o profeta dos biocombustíveis, o Sting dos biocombustíveis. Viaja pelo mundo tentando converter à nova religião chefes de estado, artistas “engajados” e magnatas. E o pior é que muitos estão mordendo a isca, comprando a giriquíssima idéia.

Lula realmente acredita estar salvando a Mãe-Natureza e a economia brasileira. Para ele, a produção em larga escala de etanol e biodiesel é, além de um investimento na mais viável das matrizes energéticas alternativas, a melhor maneira de guindar “este país” à condição de líder mundial de algum setor - no caso, o gigantesco mercado global de combustíveis. Aqui, a única pergunta que tenho para o presidente é:

- Mas quem é que teve essa idéia de Girico?

Preciso contar um segredo: os biocombustíveis não são uma matriz energética alternativa. Eles apenas dão prosseguimento ao modelo do motor de combustão interna, aquele que explode pequenas quantidades de uma substância inflamável para mover pistões.

Além de não ser uma prática revolucionária nem aqui nem na China, muito menos na Bolívia, a adoção dos biocombustíveis é prejudicial à natureza e constitui-se num verdadeiro atentado à Humanidade. Já explico por quê.

Podemos ter tudo que quisermos contra Hugo Chávez, mas de vez em quando o homem é um grande frasista. Uma de suas belas frases foi mais ou menos assim:

- Sabem qual é a produção diária de petróleo da Venezuela? 3,3 milhões de barris. Para produzir essa quantidade de etanol, seria preciso plantar milho e cana-de-açúcar em toda a extensão de todos os continentes do mundo.

Será essa apenas mais uma bravata de Chávez? Tomei a liberdade de dar uma conferida nos números e descobri, no site www.noticiasagricolas.com.br, que a moagem de uma tonelada de cana resulta em 80 litros de etanol. Logo, para igualar a quantidade de combustível que a Venezuela produz em 24 horas, seriam necessárias 6.558.700 toneladas de cana-de-açúcar. Por dia! E alguns Giricos ainda querem nos fazer acreditar que os biocombustíveis são uma alternativa viável para substituir o petróleo em todo o mundo…

Mas, mesmo que fosse possível produzir tanto milho e tanta cana, mesmo que as lavouras brasileiras dessem conta da demanda mundial de combustíveis, seria esse um bom negócio para nós? Imagine milhões e milhões de hectares de terra fértil preenchidos unicamente por plantações de grãos e cana-de-açúcar destinados à produção de álcool e biodiesel. Que impacto essas monoculturas teriam sobre os ecossistemas? Quanta água seria necessária para irrigar todas essas terras? O que aconteceria com a nossa produção de alimentos, se a quase totalidade do solo arável estivesse comprometida com o fabrico de combustível? E os trabalhadores? A maioria da população economicamente ativa viraria uma cambada de bóias-frias subempregados nas lavouras? O Brasil estaria condenado a ser um reles exportador de suco energético de grãos, para alimentar as máquinas e os carrões produzidos alhures? Nós nos tornaríamos uma nação agrícola movida por mão-de-obra semi-escrava? É esse o projeto de desenvolvimento de Lula e de Dilma Rousseff?

Estávamos diante de uma mesa de bodega, debatendo acaloradamente tais questões, quando se achegou o Valdir, o nosso garçom de confiança, trazendo mais uma rodada de chopes. Olhei pra ele e perguntei, meio que de gozação:

- E então, Valdir, tu viste que o presidente quer que o mundo troque o petróleo pelo etanol?

O bom garçom não titubeou:

- Mas quem é que teve essa idéia de Girico, doutor? Todo mundo sabe que lugar de álcool é no copo.

Amém.

Nota: o autor desta coluna não é, nem de longe, um apologista dos combustíveis fósseis. O que se quer aqui é, mais do que buscar um substituto para o petróleo, subverter o modelo do motor de combustão interna e encontrar uma matriz energética realmente alternativa.






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