Da série "em final de semestre, atolado em trabalhos de faculdade, e, por isso, utilizando um texto produzido para outro fim".
Equívoco do Antônio, o Houaiss
Por Marcio Dolzan
dolzan@papodebodega.com
Trata-se de um tipo muito comum país afora, porém fadado à extinção. Por mais paradoxal que possa parecer, desconfio que essa seja, em suma, uma boa definição para aqueles brasileiros conhecidos como assalariados.
Diz o livro do Antônio, o Houaiss, que assalariado é aquele “que trabalha mediante salário”. Das duas uma: ou o Antônio, o Houaiss, é muito simplista, ou ele está retangularmente enganado.
Ocorre que convencionamos chamar de assalariado aquele cara que trabalha em troca de um salário-mínimo, cujo nome é auto-explicativo. Daí o simplismo – ou o engano – do Antônio, o Houaiss. Porque o assalariado não é um mero trabalhador; ele é um verdadeiro sobrevivente.
Convenhamos: um assalariado não pode ser jogado na vala-comum dos trabalhadores brasileiros. Ele merece devoção. Afinal de contas, trata-se de um herói, um King-Kong regenerado que faz de tudo para garantir a vida de seu protegido, um mártir.
Digo isso porque não é normal um cara se manter vivo por trinta dias com 380 pilas. Pior: muitas vezes tem de manter toda a família viva com 380 reais mensais. Será que o Antônio, o Houaiss, acha fácil comprar vinte litros de leite longa-vida, mais alguns quilos daquela carne de segunda que tem mais nervos que o assalariado, além de pagar a luz, a água, o cartão do pré-pago e, eventualmente, a fiação do gato-net, com os minguados 380? Sem contar que, dependendo da região do país, o assalariado ainda precisa comprar um potinho de leite de magnésia para limpar os intestinos da soda-cáustica que veio de brinde no longa-vida.
Não bastasse isso, o assalariado é aquele cara que uma vez a cada cinco anos precisa enfrentar longas filas para se consultar em um ortopedista do SUS, já que os joelhos ficaram baleados em função das muitas horas em que ficou de pé no ônibus, segurando-se no pega-mão (popularmente conhecido como “put* merd*).
E há ainda o gasto com o martelinho no boteco da esquina, a calça jeans por R$ 19,90 no balaio do Lojão Oba-Oba e os DVDs piratas de Tropa de Elite e dos Simpsons, um para assistir com a patroa e outro para dar ao filho pentelho que não pára de reclamar.
É em função disso tudo que considero que o Antônio, o Houaiss, equivocou-se na hora de enunciar um assalariado. A definição dada por ele serviria se o termo “assalariado”, aqui no Brasil, remetesse aos vencimentos de gente como um outro Antônio, o Ermírio de Moraes.