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  Um breve estudo sobre o Homo tecnologicus
Por Eduardo Nunes
eduardo@papodebodega.com

Inicio a minha carreira de pesquisador da Evolução descrevendo uma nova espécie animal por mim descoberta e batizada: o tecno-macaco ou Homo tecnologicus, que evoluiu do Homo sapiens sapiens e hoje está no topo da cadeia alimentar. Faz-se necessário um minucioso detalhamento dos hábitos dessa espécie, a fim de que possamos diferenciá-la do degrau evolutivo anterior.

Os indivíduos da espécie costumam viver em grupos mais ou menos familiares. É comum que um dos chefes desses núcleos familiares eventualmente troque de grupo, e essa ausência pode ou não ser substituída. Embora vivam na mesma toca, os membros do clã não convivem, pois cada um deles tem o seu próprio horário e os seus próprios sub-grupos extra-toca.

As tocas dos tecno-macacos tornam-se imprestáveis quando é cortado o fluxo de elétrons através de cabos metálicos que estão por toda parte. Sem esses elétrons, que eles chamam de "eletricidade", os tecno-macacos não conseguem se orientar, não conseguem preparar a comida, não conseguem armazenar a comida, não conseguem se comunicar com tecno-macacos de fora da toca, não conseguem se sentir felizes dentro da toca e, em casos extremos, não conseguem sequer entrar na toca ou sair dela.

A alimentação da maior parte dos tecno-macacos é obtida em vastos e inesgotáveis mananciais que eles chamam de "supermercados". A espécie teria uma redução populacional que chegaria muito perto da extinção, se lhe fosse cortado o acesso a tais mananciais. Os tecno-macacos conseguem o seu alimento trocando-o por pedaços de papel que eles chamam de "dinheiro", que lhes é dado por um tecno-macaco que chamam de "patrão", em troca da sua força de trabalho. A quase totalidade dos tecno-macacos nem imagina como o patrão aproveita essa força de trabalho, mas eles parecem não se importar muito com isso.

Os pedaços de papel (que recentemente vêm sendo substituídos por faixas magnéticas em pedaços de plástico denominados "cartões") também servem para obter todas as outras coisas necessárias à vida do Homo tecnologicus, como acessórios para se proteger do frio ou da vergonha, adornos, quinquilharias, o direito de ir e vir, pedacinhos da empresa do macaco-patrão, pares sexuais, ferramentas para matar outros tecno-macacos e até as tocas onde vivem (com tudo que há dentro delas).

O acasalamento dos tecno-macacos é um fenômeno ímpar na natureza. Os indivíduos de ambos os sexos costumam usar elaboradas estratégias para demonstrar o seu interesse pelo parceiro potencial. A mais usada dessas táticas consiste em não demonstrar nenhum interesse. A seguir, procede-se a diversas atividades platônicas que podem acabar em união familiar, sexo casual, simples troca de fluidos bucais ou um tapa na cara – eventualmente, tudo isso junto. Os tecno-macacos e as tecno-macacas costumam procurar seus pares em locais reservados para esses fins. Lá, eles balançam os corpos freneticamente enquanto ouvem melodias ritmadas que chamam de "música" (num volume ensurdecedor, pois os tecno-macacos geralmente não têm muito assunto durante o jogo do acasalamento).

Ao contrário da maioria das outras espécies animais, o Homo tecnologicus vive muito – e especializou-se em artifícios para adiar a morte, como vacinas, medicamentos e a redução do colesterol da dieta. Eles costumam morrer em locais destinados a esse fim (é o que chamam de "hospitais"), mas muitos acabam morrendo em guerras tribais, ou por falta de acesso aos supermercados, ou ainda por não saberem lidar com as ferramentas de locomoção que eles denominam "automóveis".

Como os tecno-macacos em geral têm preguiça de ler longos textos, nossa definição pára por aqui. Este estudo não pode - e nem pretende - abranger todas as infinitas facetas que caracterizam a espécie em questão. Contudo, acreditamos que as peculiaridades aqui expostas sejam mais que suficientes para que o leitor consiga identificar um tecno-macaco assim que se depare com um – seja na rua ou ao se olhar no espelho.






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