Inventário
Por Eduardo Nunes
eduardo@papodebodega.com
Prestes a chegar ao fim da vida, Eustáquio deu pra ficar introspectivo.
Todos estranharam a mudança no comportamento do velho, famoso pela eloqüência e presença de espírito. Nas rodas de amigos, todos costumavam parar pra ouvir as tiradas do Eustáquio, que depois eram repetidas em outros círculos, sempre um pouquinho aumentadas pois, afinal, era preciso louvar o homem. Ele era uma lenda viva nos botequins de jornalistas. E também fora deles.
Eustáquio tinha tido uma vida que muitos invejavam. Conhecera o mundo inteiro, conversara com ministros e chefes de estado de todos os continentes, fizera amizades de peso em todos os setores. Nos seus anos de ouro, bastava uma nota do seu jornal para que se abrisse uma CPI. Um franzir de suas sobrancelhas podia derrubar um Ministro da Fazenda. Sua pena era temida pelos poderosos e aclamada pela opinião pública. Um gênio. E um gênio boa praça, ainda por cima.
Depois, com a passagem das décadas, ele tinha largado a imprensa para se dedicar aos amigos e a si próprio.
E agora, nem isso. Ele continuava comparecendo às reuniões, mas já não era mais aquele Eustáquio que antes tornava inesquecíveis as rodadas de chope. Ficava lá, calado e ensimesmado, vez que outra soltando um meio sorriso pra demonstrar concordância com alguma frase de alguém, mas parecia sempre ausente.
O que ninguém sabia é que Eustáquio estava entretido consigo mesmo, fazendo um inventário da própria vida. Ele julgava estar quase enxergando a última curva da sua estrada, e por isso pesava na balança tudo que tinha feito e experimentado, todos os vinhos que tinha bebido, todas as caras de insatisfação que tinha exagerado só pra sacanear o sommelier, todos os artigos que tinha publicado, todos os países que tinha visitado, todas as amizades que tinha consolidado, todos os ódios que tinha alimentado, todas as pessoas que tinha ajudado ou prejudicado, todas as mulheres que tinha fingido amar, todos os bares que tinha freqüentado, todas as coisas que tinha feito ou deixado de fazer.
Um dia, sem mais nem menos, enquanto o pessoal pedia ao Valdir mais uma rodada de chope com fritas, em meio a um debate acalorado sobre a campanha do Zequinha na Libertadores, Eustáquio rompeu o próprio silêncio e sentenciou, peremptório:
- Minha vida foi uma merda!
Todos pararam de conversar, o Valdir parou de anotar os pedidos e até os que estavam nas mesas mais próximas pararam de beber e se viraram pro Eustáquio.
Um minuto interminável de silêncio e expectativa, até que alguém criou coragem pra perguntar:
- Por quê, Eustáquio?
Ele suspirou e disse:
- Porque eu nunca tive o amor de Sílvia.
MORAL DA HISTÓRIA: O autor está deprimido demais para escrever algo que preste.