De rua
Por Si Faller
si@papodebodega.com
Faz uns cinco anos. Nesse dia eu não estava em uma bodega, mas acabei contando a história diversas vezes em uma. Era uma manhã normal de trabalho em um posto de saúde de uma vila de Porto Alegre. Bom, uma manhã normal ou qualquer outro turno lá era, quase sempre, anormal. Na ocasião, um mendigo entrou para atendimento e sentou na sala de espera. Corredor de espera, pra ser mais específica. Antes que alguém queira me dar dicas sobre como ser politicamente correta, adianto: sei que não se fala mais “mendigo”, e sim “morador de rua”. Essas coisas acontecem quando um termo vira xingamento, como ocorreu com “idiota”, outrora usado como diagnóstico psiquiátrico para designar “deficiência mental”. Em suma, “mendigo” ficou pejorativo e “morador de rua” é quase chique. Bom, depende da rua. Retomando: o cidadão abre um jornal e eu noto que não é nenhum desses possíveis de serem assinados. Sim, por que morador de rua não possui endereço fixo. Alguns “poetas” (de rua) diriam: “a rua é o seu endereço”. De qualquer forma, “a rua” é um endereço muito amplo. Ah sim, como eu sabia que o jornal não era por assinatura? Pela capa. Explico em seguida.
Depois de 2h de espera (SUS pessoal, SUS), o homem foi chamado e acabou esquecendo o jornal. Era como qualquer outro. Digo, a configuração dele. Reportagem principal em destaque, notícias e opiniões. Foi o conteúdo dessas coisas todas que me surpreendeu. Na capa, havia uma manchete que dizia: “As maiores marquises e os melhores viadutos para se proteger da chuva forte na capital”. Nossa! Existe dica para isso? Decidi prosseguir abrindo o jornal:
“Abrigos na berlinda: segurança, tranqüilidade, respeito, boa comida e regras mais flexíveis. Confira, através da pesquisa de opinião, o que se deve levar em conta ao escolher onde dormir”.
“Quentinho e econômico: como fazer seu cobertor de jornal” (e, mais irônico que muita ironia assumida, um pontilhado indicando onde dobrar e rasgar. Não é só o Bombril que tem mil e uma utilidades).
“Junho, o mês do casamento dos mendigos. Saiba o porquê”. Sim, cobertor-de-orelha deve esquentar até mais que um de jornal...
Não parava por aí, mas eu parei. Deu um frio na barriga que nem o cobertor que eu estava lendo poderia esquentar. Sei lá se foi egoísmo ignorante ou ignorância egoísta, mas nunca tinha pensado nessas coisas. Não com frio na barriga. É óbvio que a condição de morar na rua não exclui necessidades, gosto e personalidade de ninguém e é óbvio que mendigos também merecem ler sua realidade discutida e valorizada em um jornal. E jornais comprados por “moradores de casa” falam sobre problemas de classe média. As notícias são sobre o aumento no preço do feijão, as pesquisas de opinião sobre as melhores escolas para as crianças.
Eu pensava nessas coisas quando ouvi alguém:
“A senhora pode me devolver o jornal?”
Claro que eu podia, depois de respirar fundo.
“É que tem uma matéria sobre moda de rua que ainda não li”.
Tá, ele não disse isso. Mas, por um segundo, eu podia jurar que ele diria.