(Não) É assim que se cresce
Por Marcio Dolzan
dolzan@papodebodega.com
Aí você tem cinco anos, mora no Rio Grande do Sul e, lá por meados de setembro, vai para a pré-escola trajando bombachas. Porque aprendeu na aula que aquela é a Semana Farroupilha, e todo gaúcho que se preze deve enaltecer a Semana Farroupilha.
Isso, claro, aconteceu poucos dias após você ter ido para escola com uma camiseta amarela. Porque no início do mês você aprendeu que estava na Semana na Pátria, e todo brasileiro que se preze deve enaltecer a Semana da Pátria. Afinal de contas, foi num sete de setembro que o Dom Pedro levantou a espada e clamou por independência.
E então você cresce.
Cresce e te mandam desfilar no sete de setembro. Porque é um dever cívico e porque vale nota e presença para o bimestre ou trimestre letivo. E por isso mesmo você começa a desgostar do sete de setembro, apesar de ser feriado – nunca esquecendo que todo brasileiro que se preze gosta de feriado.
E cresce mais um pouco.
Cresce e, muito em função do futebol, muito em função de histórias de CTG, e muito em função de professores de História dos ensinos Fundamental e Médio, praticamente esquece do sete de setembro, dedicando-se exclusivamente ao vinte do mesmo mês. Porque você coloca nessa cabeça perturbada que “o Sul é o meu país”, às vezes chegando ao ponto de sugerir a separação do Rio Grande, com posterior anexação do Uruguai.
E aí cresce mais um pouco.
Cresce e descobre que o Dom Pedro tirou o país das mãos de Portugal, mas deixou o Brasil na mesma situação – com a ‘sutil’ diferença de ter começado nossa dívida-externa, pois teve de indenizar a “pátria-mãe” (?).
Descobre também que o tão propalado “ideal Farroupilha” nada mais foi do que uma tentativa dos grandes estancieiros de diminuir os gastos com o Estado brasileiro, e que o Giuseppe Garibaldi – que você conheceu como sendo “o herói de dois mundos” – nada mais foi do que um mercenário que lutou, sim, pelo Rio Grande. Mas por causa de dinheiro.
E você segue crescendo.
Já decepcionado com as histórias heróicas que ouvira sobre o país e o estado onde vive, você começa a se interessar por política. Porque você, apesar das decepções, é um idealista. Mas aí descobre que “nunca na história desse país” houve tanto caos aéreo, tanta quebra de decoro parlamentar nas duas casas do Congresso Nacional, tanto dólar na cueca e tanto senador petista que se abstém de cassar um parasita e depois exige que o mesmo se licencie.
E descobre ainda que “o novo jeito de governar” o seu estado é aquele que utiliza a velha mania de aumentar impostos, e que a velha mania em nada vai resolver, porque o seu estado está quebrado e com graves problemas estruturais, especialmente no que diz respeito a benefícios estapafúrdios como pensões a filhas solteiras de não-sei-quem que, veja só, nunca se casam.
E a partir daí, ao invés de crescer, envelhece. O que é bem diferente.