Se tem uma coisa que eu realmente não gosto é publicar textos de outrora em espaços dedicados à minha coluna. Escrevendo para o jornal Contexto há cerca de quatro anos e meio, (quase) nunca fiz isso – exceção feita à publicação de uma crônica minha que foi para o livro Histórias Coloradas, a qual transcrevi para o jornal a pedido do editor.
Mesmo assim, aqui vai um texto “antigo” (escrito a cerca de três semanas atrás). Fiz para a cadeira de Comunicação em Língua Portuguesa III, e transcrevo neste espaço a pedido de alguém – que, perdoem-me, não recordo quem seja.
É da série “historinhas para boi dormir”. Boi superfaturado, pois.
Marcio
Sabe, seu Laranja?
Por Marcio Dolzan
dolzan@papodebodega.com
O caso começou a vir à tona por acaso, em uma conversa realizada no interior da câmara-fria de um frigorífico. Ele havia acabado de faturar cem mil reais vendendo dois boizinhos para o abate – ao menos era o que constava nas notas fiscais –, e não conseguia esconder a satisfação pelo bom momento que passava:
- Sabe a Mônica, seu Laranja?
- Ô Renan, quantas vezes tenho que lhe dizer que meu nome é Lima? Lima! Bom, mas o que tem a Mônica?
- Tô pegando!
Lima custou a acreditar. Sabia que Renan era um cidadão proeminente por aquelas bandas, mas também sabia que ele era um cara feio. Por outro lado, Mônica era uma mulher com muitos encantos e com tantas curvas quanto a estrada que liga São Vendelino a Caxias do Sul. Perguntou o que Renan fizera para conquistá-la, e ouviu uma resposta irrefutável:
- Antes eu era feio. Agora, sou presidente do Senado da República.
O caso de Renan com Mônica, contudo, foi curto e frágil. Tão frágil quanto o preservativo utilizado na única relação carnal entre os dois. Furada, a camisinha acabou por originar um bebê e trouxe muitos problemas para o senador, principalmente após a conversa entre um lobista e o dono do frigorífico:
- Sabe a Mônica, seu Laranja?
- Ô Gontijo, quantas vezes tenho que lhe dizer que meu nome é Lima? Lima! Bom, mas o que tem a ‘ex’ do Renan?
- Tô pagando!
Indignado com os cheques sem-fundos que recebera de Renan, Lima resolveu utilizar a declaração do lobista para denunciar o senador. Ligou para a revista Veja e contou tudo o que sabia, o que não era muito. Porém, como todos sabem, o pouco costuma se transformar no suficiente para a revista, que fez um estardalhaço em sua edição seguinte.
O estardalhaço da revista Veja veio acompanhado de reportagens investigativas da Rede Globo. As denúncias contra Renan foram aumentando a cada dia, o que levou os entediados senadores de oposição a pedir a cassação de seu mandato.
Três meses se passaram entre o pedido de cassação e a votação que definiria o futuro do senador. Quem decidiria se Renan seria ou não defenestrado da vida pública eram seus próprios colegas e amigos com rabo-preso. Foi um momento de muita apreensão para o senador, que se dizia injustiçado e vítima de perseguição:
- Meus dois boizinhos valem cem mil. Eles são livres de aftosa! É picanha das Alagoas! Eu sou um mártir!
Acompanhando os noticiários, o povo foi às ruas e gritou, em uníssono:
- Liberta Barrabás! Crucifica-o! Crucifica-o!
Mas, na votação, os colegas e amigos de rabo-preso chegaram à conclusão de que os dois boizinhos valiam, sim, cem mil reais, e decidiram absolver Renan. Aliviado, o senador deu uma única entrevista para comentar a decisão:
- Deus não me deu o dom da desistência. Se eu não tiver condições de presidir o Senado, quem é que vai ter?
Foi profundo, realmente. Não bastasse isso, satisfeito com seu desempenho pessoal, Renan ainda foi à desforra. Pegou seu celular novo – que comprara para ter certeza de que estava livre de grampos telefônicos – e ligou para o dono do frigorífico:
- Sabe a ética, seu Laranja?
- Lima! É Lima, seu Renan! Bom, mas o que tem a ética?
- Tô cagando!
E Renan, Mônica, Gontijo, Lima, colegas e amigos de rabo-preso viveram livres para sempre.