Guia do Mochileiro das Galáxias
Por Eduardo Nunes
eduardo@papodebodega.com
Os papos de bodega sempre passam por vários estágios e um deles é aquele em que se comentam as preferências literárias dos ocupantes da mesa. Há, evidentemente, os autores que são bem quistos e os que são odiados. Há, também, escritores cuja simples menção pode levar ao linchamento de quem o citou, como é o caso de Paulo Coelho, o nosso Paul Rabbit - muito embora a maioria dos que afirmam odiá-lo nunca tenha lido uma linha sequer do que ele escreveu. Eu, pelo menos, nunca li.
Se você pretende, numa dessas rodas de bodega, dizer aos seus amigos que a melhor coisa que já foi escrita pelo ser humano é a coleção do Guia do Mochileiro das Galáxias, de Douglas Adams, esteja preparado para enfrentar as conseqüências. Todos pararão imediatamente o que estiverem fazendo para olhar para você com uma cara de desdém, como se você tivesse dito uma grande asneira. Alguns certamente pensarão tratar-se de uma brincadeira sua e dirão, em tom de repreensão:
- Pô, Edu, a gente tá falando sério e tu fica de frescura!
Veja só, até parece que você citou o Paul Rabbit... E você tem uma vontade louca de chamar a todos de Vogons e dizer que você está falando sério, que a série do Guia do Mochileiro das Galáxias é uma crítica à sociedade ocidental, que ridiculariza os nossos maiores defeitos com fina ironia e humor negro. Você quer dizer que o Guia aborda temas profundos com muita sabedoria e acuidade, apresentando respostas singelas para problemas complexos. Mas não adianta dizer nada disso. Eles não acreditarão, a menos que o livro se chame Crime e Castigo.
Tenho um segredo para contar: a série do Guia do Mochileiro das Galáxias é a melhor coisa que já foi escrita pelo ser humano. Como foi mesmo que eu conheci a obra de Adams? Ela me foi indicada pelo André Ribeiro, que por sinal dará um Curso de Filosofia para Leigos na Casa de Cultura Mário Quintana (informações em http://www.geocities.com/andreribeiro09/). Sabem qual foi a minha reação quando o Ribeiro me disse o nome da saga escrita pelo Adams? Eu parei o que eu estava fazendo e fiquei olhando pra ele com uma cara de desdém. Mas, depois que ele me passou o livro, e eu abri o livro e li o comecinho - só o comecinho - do livro, eu pedi, implorei que ele me emprestasse o livro. Aquele livro (cujo comecinho será reproduzido no final deste texto) era o primeiro da série. A coleção é uma "trilogia de quatro livros", com mais um apêndice publicado anos mais tarde:
I. O Guia do Mochileiro das Galáxias.
II. O Restaurante no Fim do Universo.
III. A Vida, O Universo e Tudo Mais.
IV. Até Mais, e Obrigado Pelos Peixes (o piorzinho).
Plus: Praticamente Inofensiva.
A história concebida por Adams é a saga de Arthur Dent, um inglês típico, em suas viagens pelo Universo. Tudo começa quando Arthur descobre que seu melhor amigo, Ford Prefect, é na verdade um alienígena oriundo de Betelgeuse, justamente no dia em que a Terra é demolida por naves Vogons para facilitar a construção de uma via expressa hiperespacial. Arthur e Ford conseguem fugir de carona num disco voador e acabam sendo resgatados pela nave Coração de Ouro, que está em busca da resposta para a pergunta pelo sentido da Vida, do Universo e de Tudo Mais. Eles descobrem essa resposta, descobrem também a verdade sobre a criação e a destruição da Terra, a verdade sobre o homem que governa o Universo, a origem dos colchões de molas, do jogo de críquete e o porquê das guerras étnicas, além da reprodução da mensagem final de Deus às suas criaturas.
Muitas descobertas, como você vê. Adams é iconoclasta e irreverente. Desdenha das instituições e das regras sociais mostrando o ridículo por trás delas. Exercita o sutil humor britânico e o leva à perfeição. Mas, como não adianta dizer nada disso aos neófitos, encerro esta resenha com um trechinho do primeiro livro da série - aquele comecinho que me fez ler e amar todo o resto desta maravilhosa trilogia de 4+1 livros.
Muito além, nos confins inexplorados da região mais brega do Braço Ocidental desta Galáxia, há um pequeno sol amarelo e esquecido.
Girando em torno deste sol a uma distância de cerca de 148 milhões de quilômetros, há um planetinha verde-azulado absolutamente insignificante, cujas formas de vida, descendentes de primatas, são tão extraordinariamente primitivas que ainda acham que relógios digitais são uma grande idéia.
Este planeta tem - ou melhor, tinha - o seguinte problema: a maioria de seus habitantes estava quase sempre infeliz. Foram sugeridas muitas soluções para esse problema, mas a maior parte delas dizia respeito basicamente à movimentação de pequenos pedaços de papel colorido com números impressos por cima, o que é curioso, já que no geral não eram os tais pedaços de papel colorido que se sentiam infelizes.
E assim o problema continuava sem solução. Muitas pessoas eram más, e maioria delas era muito infeliz, mesmo as que tinham relógios digitais.
Um número cada vez maior de pessoas acreditava que havia sido um erro terrível da espécie descer das árvores. Algumas diziam que até mesmo subir nas árvores tinha sido uma péssima idéia, e que ninguém jamais deveria ter saído do mar.
E, então, uma quinta-feira, quase dois mil anos depois que um homem foi pregado num pedaço de madeira por ter dito que seria ótimo se as pessoas fossem legais umas com as outras para variar, uma garota, sozinha numa pequena lanchonete em Rickmansworth de repente compreendeu o que tinha dado errado todo esse tempo, e finalmente descobriu como o mundo poderia se tornar um lugar bom e feliz. Desta vez estava tudo certo, ia funcionar, e ninguém teria que ser pregado em coisa nenhuma.
Infelizmente, porém, antes que ela pudesse telefonar para alguém e contar sua descoberta, aconteceu uma catástrofe terrível e idiota, e a idéia perdeu-se para todo o sempre.
Esta não é a história dessa garota.
É a história daquela catástrofe terrível e idiota, e de algumas de suas conseqüências.
É também a história de um livro, chamado O Mochileiro das Galáxias - um livro que não é da Terra, jamais foi publicado na Terra e, até o dia em que ocorreu a terrível catástrofe, nenhum terráqueo jamais o tinha visto ou sequer ouvido falar dele.
Apesar disso, é um livro realmente extraordinário.
Na verdade, foi provavelmente o mais extraordinário dos livros publicados pelas grandes editoras de Ursa Menor - editoras das quais nenhum terráqueo jamais ouvira falar, também.
O livro é não apenas uma obra extraordinária como também um tremendo best-seller - mais popular que a Enciclopédia Celestial do Lar, mais vendido que Mais Cinqüenta e Três Coisas para se Fazer em Gravidade Zero, e mais polêmico que a colossal trilogia filosófica de Oolonn Colluphid, Onde Deus Errou, Mais Alguns Grandes Erros de Deus e Quem é Esse Tal de Deus Afinal?
Em muitas das civilizações mais tranqüilonas da Borda Oriental da Galáxia, O Mochileiro das Galáxias já substituiu a grande Enciclopédia Galáctica como repositório padrão de todo conhecimento e sabedoria, pois ainda que contenha muitas omissões e textos apócrifos, ou pelo menos terrivelmente incorretos, ele é superior à obra mais antiga e mais prosaica em dois aspectos importantes.
Em primeiro lugar, é ligeiramente mais barato; em segundo lugar, traz impressa na capa, em letras garrafais e amigáveis, a frase NÃO ENTRE EM PÂNICO.
Mas a história daquela quinta-feira terrível e idiota, a história de suas extraordinárias conseqüências, a história das interligações inextricáveis entre estas conseqüências e este livro extraordinário - tudo isso teve um começo muito simples.
Começou com uma casa.