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Aviso aos navegantes Por Eduardo Nunes eduardo@papodebodega.com
Tenho pensado muito na posteridade. E no choque cultural. E na Anna Kournikova também, mas isso não vem ao caso.
Do jeito que as coisas andam, teremos uma posteridade? E, se tivermos, que imagem terão de nós os pósteros? E, o mais intrigante de tudo - e é aqui que entra o choque cultural -, como será possível para eles decifrar os sinais deixados pela nossa civilização?
O que conhecemos das culturas que nos precederam? Sabemos, por exemplo, que os sumérios inventaram a cerveja, usavam uma escrita cuneiforme e "ostentavam uma perspectiva circunspecta sobre a vida," segundo um historiador. Mas como saber essas coisas? Será que foram mesmo os sumérios os inventores da cerveja? Ou então, quem nos garante que a cerveja não era usada como desinfetante pelos seus inventores, até que um dia um alemão teve a idéia de bebê-la? Como saber se a escrita cuneiforme dos sumérios era mesmo uma escrita? Poderia ser a expressão máxima da arte moderna sumeriana, quadros de argila com estampas engraçadinhas. Champollion decifrou os hieróglifos egípcios. Será que decifrou mesmo? Mas, voltando aos sumérios, ganha uma tartaruga de chocolate quem me disser o que diabos significa "perspectiva circunspecta sobre a vida". Duas tartarugas para quem explicar também como se descobriu que os sumérios ostentavam tal visão de mundo.
Para mim, parece claro que só podemos compreender a realidade a partir do caldo cultural em que estamos imersos. Saindo um pouco desse jargão de filósofo francês pós-moderno, vamos explicar assim: é como se a cultura em que estamos inseridos fosse uma espécie de óculos coloridos, que usamos o tempo todo. Tudo que vemos ficará dessa cor, mas não quer dizer que o mundo seja mesmo colorido. E o mais divertido é que não podemos tirar esses óculos. Por isso, tudo que deduzimos sobre as culturas que nos precederam é filtrado pelas lentes da nossa própria cultura. Procuramos estabelecer paralelos entre uma cultura e outra, e dá certo. Ou não.
Se houver amanhã, a nossa civilização será passado. Saberão os arqueólogos, antropólogos e historiadores do futuro decifrar os sinais deixados por nós? Nossas cidades em ruínas serão consideradas proezas de uma arquitetura desenvolvida ou exemplos gritantes do nosso atraso? As redes de comunicações, com suas antenas, cabos e satélites abandonados no espaço, serão encaradas como redes de comunicações ou como monumentos em homenagem aos nossos deuses primitivos? Os especialistas na nossa civilização classificarão nossos outdoors como cartazes publicitários ou como exemplos toscos dos primórdios da nossa arte rupestre? Como nossos aviões, estádios, automóveis, plataformas petrolíferas, cd's, computadores, sofás, livros, igrejas e fotos da Anna Kournikova serão catalogados nos museus de arte primitiva? E os silos de mísseis nucleares, como serão vistos? E se algum arqueólogo particularmente curioso conseguir detonar acidentalmente todos eles?
Moral da história: não se preocupe muito com a posteridade, pelo menos não com a posteridade remota. Aconteça o que acontecer, faça você o que fizer, eles não vão entender mesmo.
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