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  Ah, um dia...

Por Marcio Dolzan

dolzan@papodebodega.com

 

Um dia você acorda, liga a TV e vê o Renato Machado anunciando que os quarenta cidadãos denunciados no esquema do Mensalão, punidos, alguns presos, prometem recorrer. Porém, na reportagem que se segue, um renomado jurista sentencia:

 

- Não adiantará.

 

E a reportagem encerra com a imagem de um ex-ministro entrando algemado num camburão.

 

Aí você levanta, se espreguiça, e vai ao banheiro fazer sua higiene pessoal. A água que sai do chuveiro e da torneira é límpida e inodora. Enfim, é água. Livre de qualquer tipo de microorganismo ou da proliferação de algas.

 

Com um sorriso no rosto, você sai de casa e vai para o trabalho. Respira fundo, um ar-fresco como o ar das montanhas, que se propaga com a brisa e que é recebido com o canto dos rouxinóis e bem-te-vis.

 

Ao se preparar para atravessar a avenida movimentada, você vê carros e caminhões parando antes da faixa, com os motoristas sorrindo para você e fazendo um sinal com a mão do tipo “tenha a bondade, o pedestre sempre tem a preferência”.

 

E você atravessa a faixa sorridente, e chega ao trabalho mais sorridente ainda. Você é estagiário em repartição pública e, ao chegar, é recebido com cordialidade por todos os colegas de trabalho, que, mesmo muito ocupados com o serviço da repartição, encontram um tempinho para levantar a cabeça e cumprimentá-lo.

 

Então você senta em seu local de trabalho e começa a despachar os papéis. E eis que surge uma dúvida, que de pronto é respondida pelo chefe da repartição. Você o agradece, ele retribuiu:

 

- Que é isso, não foi nada. Estagiários devem ser sempre muito bem tratados; afinal de contas, são funcionários como qualquer outro daqui.

 

E o seu dia rende bem e passa rápido. Porém, como o serviço fora tão bom, você resolve ficar uma hora a mais, sem exigir remuneração-extra por isso.

 

Aí, com o sol já se pondo, você retorna para casa, respirando fundo, encantado com o vôo das pombinhas e mais encantando ainda com os motoristas, que mesmo na hora do rush param nas faixas de segurança e, sorridentes, fazem o sinal com a mão do tipo “tenha a bondade, o pedestre sempre tem a preferência”.

 

E enfim você chega em casa, sendo recebido por dois enfermeiros e por uma camisa-de-força.

 

Porque você só pode ter enlouquecido.

 

Só pode!






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