Atravancaram o caminho
Por Marcio Dolzan
dolzan@papodebodega.com
Quando eu tinha sete, oito anos, minhas manhãs de quartas-feiras eram ocupadas na Biblioteca Pública Municipal, que então se localizava no prédio da Prefeitura. Isso lá em Carlos Barbosa, na Serra, minha cidade natal.
Eu passava as manhãs de quarta lá porque a Dóris, uma das bibliotecárias, organizava o Cantinho da Criança, um projeto onde crianças liam livros, desenhavam, pintavam com giz de cera e coisas do gênero.
O mais legal desse projeto é que, antes de voltarmos para casa, nós tínhamos que retirar um livro. Evidentemente, poucos liam em casa. Mas, eventualmente, dependendo do livro, eu era um desses poucos.
Como desde aquela época eu era fã de gibis, livros com histórias em quadrinhos sempre me cativavam. Tinha um do Iotti, o Demo Via (se não me engano), que retirei pelo menos umas três vezes. Contava a história da vinda do Giuseppe, da Itália para o Brasil. E o final da história relatava o nascimento e os primeiros anos de vida de seu filho. Sabe quem era o filho? O Radicci! Foi daí que surgiu meu gosto pelo personagem, sendo que tempos depois me tornaria fã do cartunista e escritor.
Porém, o livro em quadrinhos que mais me marcou naquele início dos anos 1990 foi outro. E saiu daquela mesma biblioteca, em uma quarta-feira de Cantinho da Criança. Chamava-se Pé de Pilão, do Mario Quintana.
Acho que poucas obras conseguiram ser tão sensíveis, líricas e engraçadas ao mesmo tempo como o Pé de Pilão. E o mais legal de tudo é que foi escrito pelo poeta maior aqui do Sul, uma pessoa que escrevia poemas para todas as idades, que tinha uma simplicidade ímpar, umas tiradas fenomenais, um humor às vezes ácido e constantemente irônico, e cujo semblante sereno e sorridente ficará eternamente marcado.
Mas uma coisa me incomoda nessa história. Sabe o quê? É que com oito anos eu aprendi a gostar de Quintana, algo que a Academia Brasileira de Letras não conseguiu em cerca de um século.