Ah, os ônibus modernos
Por Marcio Dolzan
dolzan@papodebodega.com
Há cerca de quarenta, cinqüenta anos atrás, os ônibus eram bem diferentes desses que temos agora. O bagageiro, por exemplo, ficava em cima. Amarrados com uma cordinha, tá ligado? Isso, igual alguns fazem com as pranchas quando vão para a praia de Palio ou Parati. Se chovesse, bom, aí o cobrador colocava uma lona em cima das malas e a viagem seguia tranqüila.
Tranqüila, sim. Porque não havia muitos carros, não havia pardais, e as estradas de chão-batido, invariavelmente, possuíam menos buracos que as asfaltadas.
Não bastasse isso, as viagens naqueles ônibus eram mais parecidas com essas viagens que fazemos de carro com a família. Quando alguém se apertava, era só pedir para o motora parar o ônibus e dar aquela aliviada à beira da estrada.
Simples.
Bom, mas aí o tempo passou, a população aumentou exponencialmente, aumentaram o número de estradas, de buracos, de passageiros e de exigências. Hoje ninguém mais faria uma viagem interurbana em um ônibus cuja bagagem é colocada em cima, amarrada com uma cordinha.
Isso, claro, é o de menos. O que importa é o conforto. Alguém que vai ficar mais de uma hora dentro de um ônibus deseja pelo menos uma poltrona razoavelmente confortável em um ônibus pouco barulhento.
E com banheiro.
Pois aí eu estou vindo para Porto Alegre nesse último domingo, sentado na poltrona de número 30 desses ônibus mais modernos. Era noite e, fora a luminosidade do meu celular nos momentos em que eu enviava torpedos para a Si, e uma ou outra luz de leitura acesa, a única coisa que se enxergava dentro do ônibus era um relógio colocado bem lá na frente.
Ocorre que o relógio não era somente um relógio. Era também um fofoqueiro. Daqueles cruéis. Cada vez que alguém entrava no banheiro, o relógio informava aos cerca de 40 passageiros:
WC OCUPADO.
Aí a pessoa saía do banheiro e ficava aquela situação constrangedora:
- Rá, tava boa a feijoada, hein?
- Hum... será que ela lavou as mãos?
- Ah, esse cheiro é teu, então?
E eu lá, sentado, com vontade de urinar. Pensei em me atirar no chão e rastejar até o banheiro. Isso, semelhante ao Resgate do Soldado Ryan. Mas não adiantaria, pois no momento que eu girasse o tranca da porta o relógio fofoqueiro me avacalharia com um WC OCUPADO.
Aí eu desisti.
E cheguei à conclusão que aqueles ônibus com bagageiro em cima e malas amarradas com cordinhas nem eram tão ruins assim.