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Por Si Faller
si@papodebodega.com
 
Hoje falarei de um assunto muito sério, até indigesto para ser discutido em uma bodega. É que eu também fui ver o tão comentado Tropa de Elite, e não estou em clima de descontração. Pode ser que a opinião esteja um pouco atrasada, mas é que não me rendi ao imediatismo da pirataria e preferi esperar a estréia no cinema mesmo.
O filme aborda temas pertinentes que, com certeza, mereceriam vários textos nessa coluna. Porém, um deles me chamou particularmente a atenção, talvez por eu ser indignada com isso há um bom tempo e por ter vivido situação parecida. Como espectadora, igual no filme. Ocorre que, em cursos da área das humanas, como o Direito (no filme) e a Psicologia (na minha vida), muitas pessoas motivadas por incrementar o currículo ou por sentimentos como amor ao próximo, se metem a fazer caridade. Esses estudantes, muitas vezes, iniciam seu trabalho em ONGs e instituições que atendem crianças, moradores de rua, mulheres vítimas de violência doméstica, enfim, pessoas que precisam de cuidados e atenção especial. A princípio, não há problemas até aí. A grande hipocrisia vem à seguir.  Os universitários do filme, como eu e a maioria dos meus colegas, trabalhavam com crianças carentes. Em uma favela. Essa favela era "propriedade" dos traficantes. Portanto, os traficantes permitiam que o trabalho fosse realizado lá, alegando que também possuiam a tal consciência social. Os estudantes em questão, como alguns de meus colegas de faculdade, fumavam maconha e deviam achar autêntica a consciência social dos traficantes. Muito romântico.
 
Alguns podem pensar “E daí? Cada um faz o que quer, cada um sabe de sua vida.” Certo?
 
Bom, todos sabemos que, uma empresa que não tem clientela acaba não vendendo seus produtos e, assim, indo à falência. Portanto, o tráfico não teria tanta força se não houvesse (muita) gente contribuindo. E não falo aqui da corrupção policial, também retratada no filme, que contribui com as armas e a "vista grossa". Pois é, falo do usuário, principal financiador do tráfico.
Encurtando o caminho entre uma coisa e outra, dá pra dizer que o pessoal auxiliava algumas crianças em alguns de seus problemas mas ajudavam a matar tantas outras, trabalhadoras da empresa do tráfico, que cresceu e ainda cresce devido à demanda.
E tem outra coisa, essa não retratada no filme: os exorbitantes gastos do estado (através dos nossos impostos!) com os problemas derivados do uso de drogas. Veja bem, nisso não está incluso só o tratamento daquele que usa, mas também custos de acidentes de trânsito, de trabalho, os homicídios...Fora o que a economia do país deixa de ganhar devido às faltas no trabalho e aposentadorias por invalidez física e psicológica.  Então, para os que insistem em enxergar o uso de drogas como um problema que “ninguém tem nada a ver com isso”, sugiro que façam uma poupança ou, quem sabe, um fundo de investimento. Não para a viagem pra Europa, o curso de francês, a casa própria. Poupem para pagar o prórpio tratamento! E para pagar os postes de luz que derrubarem na via pública, ou a pensão daquele que ficará com graves seqüelas físicas e mentais por ter sido atropelado por alguém que dirigia sob efeito de substâncias. Ou, quem sabe, para indenizar os filhos do homem morto durante um assalto. Dívida com traficante e fissura por drogas não esperam, e podem valer vidas. E para aqueles que ainda não se convenceram do potencial de alcance das suas ações, lembro que o acidentado, o assaltado, o lesado pode ser algum familiar desse cidadão que insiste no egoísmo, que continua achando que ninguém deve se meter em sua vida.
Nos últimos dias, boa parte de meus pensamentos têm sido dedicados àquela cena do filme onde um policial do BOPE esfrega a cara do "playboy maconheiro" (expressão eleita por alguns personagens do filme) no sangue do traficante baleado, perguntando se ele sabia quem o havia matado. "Foram vocês", responde ele. "Não, foi você. Você matou esse cara!", o policial grita para o rapaz atônito.
 
Vejam só, não falo querendo punir ou responsabilizar completamente os usuários de drogas. Seria extremamente reducionista ignorar a complexidade de um problema como esse. E razões sim, cada um tem as suas. Quero é instigar a reflexão. Afinal de contas, possuímos ou não todo um aparato cortical exclusivo à nossa espécie (leia-se cérebro humano) capaz de processar informações e tomar decisões mais adequadas? Então! Talvez seja isso o que falta para evitar ter a nossa cara esfregada no sangue dos mortos pelo tráfico.

 

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