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Passados
Por Marcio Dolzan
dolzan@papodebodega.com

Coluna publicada originalmente no Jornal Contexto, de Carlos Barbosa/RS.

 

Alguns dias antes do Natal, entrei em um ônibus urbano em Porto Alegre um tanto diferente. Ele estava todo decorado com aquelas tiras de pompom colorido, que eu não faço a menor idéia de como se chama, mas que serve para enfeitar paredes e vitrines em época de Natal.

 

O ônibus em si já era bom – tinha ar-condicionado, televisão e poltronas bastante confortáveis para um veículo do tipo “cristaleira”, aquele que é virado em vidro – mas esse coletivo natalino tinha uma peculiaridade pitoresca: o motorista.

 

Ocorre que o motorista tinha um microfone daqueles que ficam presos à cabeça, e que são muito utilizados por telefonistas, por atendentes de tele-marketing e pela Ana Maria Braga. Com a diferença que o motora tinha mais calma que a maioria das telefonistas, mais senso de humor que a maioria dos atendentes de tele-marketing, e não chamava o assistente de trabalho de Louro José.

 

Chamava-o de “tesoureiro”, pois.

 

Com o microfone, o motorista tornou a viagem tradicionalmente sacolejante em uma espécie de passeio turístico. Com uma voz de aprendiz de Cid Moreira – e mais ou menos a mesma idade –, ele anunciava o nome das ruas e das paradas. Até que decidiu mudar o rumo de seu solilóquio:

 

- Dizem que relembrar o passado é sofrer duas vezes... mas me permitam contar uma historinha.

 

Permitimos.

 

O motorista prosseguiu.

 

- Você sabia que, há 135 anos, a Carris tinha bondes puxados por burros?

 

Pensei em dizer “Tá, e aí? Hoje em dia, lá na Esplanada dos Ministérios, tem um monte de coisa puxada por burros e ninguém sai por aí falando...”, mas deixei quieto. Até porque a entonação de voz do motorista prometia fortes revelações. Um grande suspiro e as palavras que se seguiram comprovaram:

 

- Mééélll Deus! Quantos burrinhos não conseguiram subir os morros, obrigando os passageiros a descer e empurrar o bonde...

 

O detalhe é que, naquele exato momento, estávamos justamente subindo a lomba na Protásio Alves. Pensei ter ouvido o motor apanhando.

 

Não, não pensei.

 

Historinhas à parte, a filosofia do motorista de que “relembrar o passado é sofrer duas vezes”, e que eu discordava com veemência, hoje vejo que tem certo fundamento. Ela depende muito de que parte do passado você está lembrando. Mas, mesmo nesses casos, não dá para escapar daquela obviedade que diz que a melhor maneira de se compreender o presente é olhando o passado.

 

No futebol, se eu olhar para trás verei um Internacional que sucumbia a times pequenos na Copa do Brasil, que dependia de gols do Paulinho McLaren e que invariavelmente era eliminado no Brasileirão por falta de um gol ou um pontinho. E aí eu sofro duas vezes. Porém, é olhando para o passado que dá para entender como esse mesmo clube consegue – e com apenas uma semana de treinamento – derrotar dois campeões de dois fortes campeonatos europeus em um intervalo de pouco mais de 48 horas.

 

É por isso que tenho a convicção de que, hoje, a Copa Dubai não tem grande valor para a história do clube. Mas um dia ajudará a explicar muita coisa.

 

 

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